Professoras relatam dispersão, crises de ansiedade, brigas, agressões físicas e desentendimento entre alunos
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Os profissionais da educação não sabem como ajudar melhor seus alunos, e as técnicas da Justiça Restaurativa permitem entender e tentar solucionar esses conflitos
Redação/Hourpress
“A solução de conflitos no ambiente escolar é algo que sempre me preocupou. Mas agora, com o retorno às aulas presenciais, é nítido que o comportamento de muitos alunos está diferente em comparação com o período antes da pandemia. Eles estão mais dispersos, impacientes, agressivos e desmotivados. Os alunos se mostram resistentes a reconhecer e lidar com emoções e sentimentos, e não estão conseguindo resolver seus conflitos pessoais, muito menos os conflitos com outras pessoas. Parecem ter esquecido como desenvolver um diálogo, resolvem tudo com gritos e agressões verbais e físicas.”
Quem faz o contundente relato é a professora Tabta Gozodolo Batista, participante da “Formação Prática de Facilitadores de Círculos de Construção de Paz”, realizada pelo Instituto Paulista de Magistrados (IPAM) no âmbito do Projeto de Implantação e Expansão da Justiça Restaurativa na Comunidade de Heliópolis, na zona sul da Capital de São Paulo. Tabta é professora de matemática, mas ocupa atualmente o cargo de Proatec (Professor de Apoio à Tecnologia) na E.E. Manuela Lacerda Vergueiro, em São João Clímaco, bairro da região sudeste da cidade. Ela diz que a formação vem ao encontro das necessidades das escolas, especialmente neste momento de retorno das aulas presenciais, depois do período de ensino remoto por causa da pandemia.
“Essa capacitação em Justiça Restaurativa tem sido muito útil, principalmente os Processos Circulares, porque estou podendo adquirir uma bagagem para começar a colocar em prática tudo que venho aprendendo, e que vai me ajudar a tratar da solução dos conflitos na escola, especialmente com tantos registros de crises de ansiedade, brigas, agressões físicas, desentendimento entre alunos e professores, e às vezes até entre professores também. Percebo que os profissionais da educação não sabem como ajudar melhor seus alunos, e as técnicas da Justiça Restaurativa me permitem entender e, de alguma forma, tentar solucionar esses conflitos. Acho que seria muito proveitoso se mais educadores tivessem acesso, condições e tempo para conhecer a colocar em prática as técnicas da Justiça Restaurativa”, disse Tabta Batista.
Processo
A segunda etapa da “Formação Prática de Facilitadores de Círculos de Construção de Paz”, realizada pelo IPAM, teve início em fevereiro e, no próximo dia 27 de abril, será realizado o terceiro de uma série de seis encontros presenciais para aplicação dessa capacitação, realizados na comunidade de Heliópolis. A supervisão ocorre uma vez por mês, sempre às quartas-feiras, dividida em dois grupos: um pela manhã, das 8h às 12h, e um à tarde, das 13h30 às 17h30. Os próximos encontros acontecerão em 25/05, 22/06 e 03/08.
“Durante o ano de 2021, a etapa formativa do Projeto de Implantação e Expansão da Justiça Restaurativa na região da subprefeitura do Ipiranga (Heliópolis) foi composta de duas etapas: um curso introdutório, desenvolvido para transmitir a ideia, os valores e os princípios da Justiça Restaurativa, e uma capacitação de Facilitadores em Processo Circular, visando trazer autonomia para os profissionais da região, possibilitando o uso desta metodologia restaurativa”, lembra a escrevente técnica do curso, Renata Zarantonelli Barbosa.
Para Renata, “neste ano o projeto segue com os encontros de Supervisão, que consistem no apoio e acompanhamento para desenvolvimento de ações concretas na região de Heliópolis, levando à prática os conceitos e ferramentas exploradas até então”. Nessa etapa, segundo ela, “além da orientação no planejamento da estrutura dos Processos Circulares, os próprios planos de ação serão construídos em conjunto, com a participação das formadoras e dos facilitadores formados, integrantes da Rede de Apoio do território. Também serão proporcionados momentos de estudos teóricos, associando-os à prática. É um período de acompanhamento qualificado, importante para o início das ações”, destacou.
Convívio
Para Marcelo Salmaso, membro do Grupo Gestor da Justiça Restaurativa do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJSP) e um dos coordenadores do curso, “todas as etapas da capacitação são importantes porque a Justiça Restaurativa é um convite à mudança de um paradigma de convivência social, e para que se deixe a lógica e as diretrizes do individualismo, do utilitarismo, do consumismo e da exclusão, que fomentam a competição e a guerra de todos contra todos em todas as ambiências do convívio.
Seja nas relações interpessoais, familiares ou institucionais, e um convite para construir uma sociedade e uma estrutura de convivência social pautada por outras diretrizes, como tolerância, diálogo no atendimento das necessidades, reparação de danos e construção de novos caminhos e responsabilidades individuais. Ao mesmo tempo é baseada na consciência da responsabilidade coletiva de toda uma comunidade, que se corresponsabiliza pelo que aconteceu, no sentido de garantir suporte às necessidades das pessoas e atuar nos fatores que motivam o conflito e a violência, para que eles não gerem novos conflitos e novas violências”.
Início do projeto
A primeira formação surgiu dentro de um projeto que já existia na região da Comunidade de Heliópolis, desde 2005, e durante muitos anos foi um dos primeiros no Brasil a ter uma iniciativa de Justiça Restaurativa, que depois foi interrompida. O curso foi um projeto-piloto que era para ter acontecido presencialmente em 2020, com a finalidade de retomar o projeto antigo. Mas com a pandemia, dos 100 inscritos, apenas 61 concluíram o curso on-line.
Em 2021 teve início o projeto-piloto da Capacitação de Formadores em Processo Circular, que também foi realizada em duas turmas e em seis encontros, só que em períodos diferentes (turma 1: setembro e outubro e turma 2: novembro e dezembro) e as aulas eram realizadas das 8h30 às 17h30.
O curso é fechado e tem a participação de funcionários de órgãos do Poder Judiciário, servidores de escolas estaduais e colaboradores de ONGs, que foram inscritos no projeto criado por meio de parceria firmada entre o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJSP), através do Grupo Gestor da Justiça Restaurativa na Coordenadoria da Infância e da Juventude, o próprio IPAM, a Escola Paulista da Magistratura (EPM), a Associação Paulista de Magistrados (Apamagis) e a Diretoria de Ensino Região Centro-Sul da Secretaria Estadual de Educação.
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