09 dezembro 2021

Opinião: O politicamente correto é correto?

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Muita gente sofreu, e pagou com a própria vida, para o Brasil ter democracia

Também não me causa nenhum medo, as intimidações de Pms da #Rota

Luís Alberto Alves

Atualmente nós caímos numa armadilha: a perda da #liberdade de falar sobre determinados assuntos. Igual em uma #ditadura, caso seja rebelde acaba punido. No #regime militar brasileiro de 1964, a punição era na cadeia, após sofrer as dores da #tortura por dias e até meses. Hoje, é o esculacho nas #redes sociais.

Os atuais #ditadores de plantão escolheram grafias corretas, na visão deles, para que você se enquadre naquele quadradinho. Portanto, antes de abrir a sua boca, pense bem no assunto que será abordado. Do contrário, a infeliz cultura do #“cancelamento” cairá sobre a tua cabeça. Entrará para o clube dos malditos, na visão desta minoria, que se julga acima do bem e do mal.

Jamais caia no erro de me chamar de #negro, mas de cidadão afro-descendente. Para esse pessoal, a palavra #negro soaria de forma pejorativa. Sou #negro há 61 anos e nunca tive problema com a minha #negritude, nem quando me chamavam de criolo, moreno, cor de chocolate. Sabia distinguir quando era ofensa ou não. Hoje não é assim, na visão do regime ditatorial existente no País.

Favela

Se você conhece algum dos 11,4 milhões de brasileiros que, por falta de recursos financeiros, tenha uma casa numa das 6.329 #favelas espalhadas por 323 cidades deste Brasil, segundo cálculo do #IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), diga que ele mora numa comunidade, nunca #favela. Falar assim é desrespeito.

De repente você está numa avenida bem movimentada e encontra alguém que pretenda atravessá-la, mas por sérios problemas visuais não consegue, nunca diga que ajudou um dos 1,1 milhão de #cegos que existe em nosso País atualmente. Encha os pulmões de ar e fale #“deficiente visual”. O contrário é deselegante, mesmo para os 4,4 milhões de pessoas que têm doenças graves nos olhos.

Caso esteja almoçando em um #boteco e percebeu que alguém encontra dificuldade para mastigar um pedaço de #carne durante o almoço, não seja infeliz ao chamá-lo de #“banguela”. Infelizmente ele é um dos 20 milhões de pessoas que não tem nenhum #dente na boca. No jargão da atual #ditadura, é um deficiente bucal.

Fome

Caso você passe pelo inferno da #Cracolândia, no Centro de SP, próximo à Praça Princesa Isabel, Avenidas Rio Branco e Duque de Caxias, não cometa o desatino de dizer que ali se encontra parte dos 3,5 milhões de #drogados existentes no Brasil. Apenas repita o mantra, de que eles são “usuários de substâncias ilícitas”. Como se falando assim, a situação se tornasse boa.

Ao ver alguém pedindo dinheiro para comprar #comida, também seja educado e nunca fale que essa pessoa está incluída na triste estatística dos 10,3 milhões de #famintos existentes no Brasil, de acordo com dados do #IBGE. Apenas diga que são pessoas que enfrenta carência alimentar ou famélica.

Abra a boca com cuidado e pronuncie pausadamente que o Brasil tem, atualmente 221.869 pessoas em #situação de rua, segundo dados do #Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Para evitar a punição do atual regime ditatorial do #cancelamento, fique longe dos seus lábios a indecente palavra #“mendigo”.

Médico

Cuidado ao ver ladrões sendo presos pela #polícia. Como cidadãos, que recusam trabalho e optam por roubar, os chamem de pessoas que “subtraem recursos alheios”. A palavra #ladrão é degradante e pode provocar sérios transtornos psicológicos.

Perante os nossos atuais #ditadores de plantão, uma minoria que nunca andou de ônibus lotado às 5h da manhã para ajudar no sustento da família, estudou em escola pública, onde bandidos ameaçam estuprar e roubar professoras; aguentou histeria de chefe cobrando rápidos resultados, do contrário é candidato à #demissão, ficou horas à espera de atendimento médico em #hospital público, morou na #periferia, onde a sobrevivência é garantida pela famosa lei do “nada vi, nada falo, nada ouvi’, o politicamente correto é correto.

Não é! Este que vos escreve já levou borrachada da #PM, no final da década de 1970, quando este país vivia numa #ditadura militar, reivindicado que um dia a democracia fosse realidade. Também perdi parente torturado na casa de terror da Rua Tomaz Carvalhal, 1.030, bairro do Paraíso, onde funcionava o #DOI/Codi.

Frescura

 Por causa de minha #cor, da qual me orgulho, perdi muito emprego e sofri inúmeras perseguições. Já nem me preocupo quando vou a algum #shopping center, sozinho ou com minha família, e me torno alvo dos olhos dos seguranças.

Também não me causa nenhum medo, as intimidações de Pms da #Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) e da #Força Tática, quando me observam lentamente ao volante do meu carro, principalmente quando chego em casa à noite.

Correto, em minha opinião, é deixar essa frescura  do #“politicamente correto de lado” e olhar para o próximo. Procurar ajudá-lo. Lutar para que os seus sonhos sejam realidade algum dia. É levar comida, roupa e palavra de fé aos moradores de ruas, como faço quando tenho oportunidade, sem a preocupação de aparecer nas redes sociais.

Revolução

É socorrer alguém, financeiramente, sem luz, água e comida em casa. É entrar num quarto de #UTI (Unidade de Terapia Intensiva), como já fiz diversas vezes, e trazer uma palavra de conforto para os familiares de pacientes próximos da morte. É chorar e se alegrar com o próximo.

Fazer revolução ou acusação escondido atrás de um celular ou computador é fácil. Difícil é colocar a cara para bater em público. Em tempo: a #Constituição Federal me permite a livre manifestação de pensamento, conforme art.5º, inciso IV, do capítulo I, Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos.

*Luís Alberto Alves, jornalista e editor do blogue Boca Ligeira.

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